O SEGREDO DA LONGEVIDADE

O SEGREDO DA LONGEVIDADE

Pela primeira vez, cientistas identificam o conjunto de genes que nas faz viver mais. Seremos capazes de retardar nosso envelhecimento?

Por Marcela Buscato e Allne Ribeiro

Reportagem da Revista Época de 5 de julho de 2010, seção Ciência e Tecnologia – Genética, páginas 60 a 66.

A gaúcha Olivia Franco da Silva faz questão de manter os costumes nutridos ao longo de seus 101 anos. Assim que acorda em sua casa em Alvorada, região metropolitana de Porto Alegre, acende um cigarro. A única diferença é que ela trocou há 15 anos o fumo enrolado em palha, igual ao que roubava da mãe desde os 8 anos, pelos cigarros industrializados. Torresmo, ovo frito e linguiça fazem parte do seu café da manhã. “Se não tiver isso, ela não come”, diz Hevelin Ferreira, de 28 anos, uma de suas mais de 20 netas. Olivia não gosta de comidas “finas” – como chama o arroz e feijão feito com pouco óleo. Para ela, os alimentos devem ser preparados em banha de porco, como seus pais faziam quando moravam na roça. Nos finais de semana, Olivia não recusa uma dose de cerveja preta. Caipirinha só se for de cachaça artesanal, porque a industrializada “parece água de tão fraca”. Com seus costumes simples Olivia cruzou a fronteira dos 100 anos, o que só acontece com uma em cada 6 mil pessoas.
Mais. Ela fez isso contradizendo a fórmula da vida longeva prescrita pelos médicos: alimentação equilibrada, atividade física e uma exis¬tência livre de vícios. Apesar de seus hábitos pouco saudáveis, Olivia nunca foi internada nem toma remédios (diz se prote¬ger com reza e chá caseiro). Não tem sequer colesterol alto.
A vida longa e saudável de Olivia não inspira só aqueles que não conseguem abdicar de seus pequenos pecados cotidianos. Para muitos cientistas, gente como ela guarda o segredo da longevidade. Por que essas pessoas, com tantos anos a mais, parecem ter menos problemas de saúde do que a maioria de nós – que, já no meio da vida, sofremos com hipertensão, colesterol alto, diabetes e doenças cardíacas? “Os centenários são um modelo de como envelhecer porque conseguem postergar o aparecimento de doenças”, diz o geriatra Thomas Perls, pesquisador da Universida¬de de Boston, nos Estados Unidos. “Cerca de 90% permanecem sem problemas de saúde pelo menos até os 93 anos.”
Na semana passada, Perls levou um grupo de cientistas ao mais próximo que a ciência já esteve de revelar o segredo da longevidade. Sua equipe publicou na revista cientifica Science, uma das mais importantes do mundo, uma análise da genética de 1.055 idosos entre 95 anos e 119 anos. Os cientistas investigaram o genoma dos centenários de Boston e arredores que integram um dos mais importantes pro¬jetos de pesquisa sobre envelhecimento, o New England Centenarian Study. Também participaram da análise genética idosos recrutados por uma empresa de biotecnologia americana.
Frente a frente com um grupo tão singular, os cientistas tiveram a chance de avaliar se a receita para uma vida longa estava escondida entre as letras químicas do nosso código genético. Eles compararam os genes encontrados nesses voluntários centenários aos genes de filhos de pessoas que morreram com menos de 73 anos. O resultado da pesquisa mostrou que o grupo de centenários compartilha cerca de 150 variações de genes, que seriam as responsáveis pela longevidade fora do comum – ou excepcional, como chamaram os pesquisadores.
Trata-se da vida longa, sem grandes problemas de saúde, experimentada pela brasileira Olivia e por vários velhinhos ou velhinhas que andam por aí. Se houver um desses em sua família, há bons motivos para comemorar, segundo o estudo liderado por Perls. A descoberta de genes mais frequentes entre as pessoas longevas mostra que, nesses casos, os fatores genéticos são mais importantes na determinação da duração da vida do que os ambientais (o tipo de alimentação e a prática de atividades físicas). Mas atenção: esses casos são exceção. Para a maioria dos mortais, os genes determinam apenas 30% da extensão da vida. Os outros 70% ficam a cargo de nossas escolhas, de como nos cuidamos.
Os cientistas descobriram que não existe uma só configuração genética associada à vida longa. Eles constataram que há 19 tipos de combinações possíveis entre os 150 genes encontrados nos centenários americanos. Cada um dos voluntários se encaixava em um desses 19 perfis genéticos. Uma das configurações conferia maior resistência na velhice a doenças cardiovasculares. Outra diminuía as chances de sofrer de demência. Uma terceira protegia contra o desenvolvimento de tumores. “É como se nós ganhássemos um bilhete de loteria ao nascer”, diz a bióloga Ivana Da Cruz, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência brasileira no estudo dos mecanismos biológicos do envelhecimento. “Ganha o prêmio da longevidade excepcional quem tirar uma dessas 19 combinações.”
A pesquisa é um marco na ciência que estuda o envelhecimento humano (leia sobre o processo na figura abaixo). Pela primeira vez conseguimos um retrato tão abrangente dos fatores genéticos que influenciam na longevidade. O mapeamento genético dos centenários dá aos cientistas a chance de bisbilhotar por entre os vãos dos intrincados processos que resultam no colapso de nosso organismo. Os pesquisadores acreditam que, ao entender os mecanismos que fazem nossas células se degradar, será possível desenvolver tratamentos para retardar esse processo. E, quem sabe, atuar para congelar nossa idade biológica, acrescentando algumas dezenas de anos à vida de quem não tirou o bilhete genético premiado dos centenários. ”Acredito que em um futuro não muito distante muitos de nós teremos a chance de adicionar uma década ou duas de vida saudável a nossa existência”, afirma o geriatra americano Bradley Willcox, pesquisador da Universidade do Havaí.
A convicção de Willcox se deve em parte a sua contribuição na pesquisa sobre o envelhecimento. Ele coordena um dos maiores projetos do tipo, o Okinawa Centenarian Study. O programa acompanha moradores que chegaram aos 100 anos nas ilhas que compõem a província de Okinawa, no sul do Japão. A população de lá tem características peculiares: uma das menores taxas de mortalidade por doenças crônicas do mundo e uma das maiores concentrações de velhinhos centenários. Só o projeto já estudou mais de 900 deles. Ao analisar seus genes, Willcox descobriu que os homens que apresentavam uma determinada variação em um gene do processamento do hormônio insulina tinham até três vezes mais chances de se tomar centenários. É com base nessas descobertas que os pesquisadores sonham com a possibilidade de desenvolver drogas que prolonguem a vida.
As populações mais isoladas, como a de Okinawa, são vistas pelos cientistas como a chave para chegar até os genes que rendam tratamentos para retardar o envelhecimento. Por causa das limitações impostas pela geografia, haveria menos mistura dos genes dos habitantes desses locais com pessoas de outros lugares, o que facilitaria a preservação das sequências genéticas associadas a longevidade. Isso explicaria por que há tantas pessoas de 100 anos em ilhas como Okinawa, Sicília, na Itália, e na Islândia. Ou em Maués, uma cidadezinha brasileira de 47 mil habitantes que já despertou a curiosidade de pesquisadores.

Localizada a 267 quilômetros de Manaus, Maués tem o dobro da média nacional de pessoas com mais de 80 anos: 1 % contra 0,5%. O município até criou um centro de convivência e atendimentos médico e odontológico exclusivos para atender ao perfil inusitado de seus moradores. São pessoas como João Rocha Gomes, que nasceu e cresceu na zona rural de Maués. Em fevereiro, ele completou 100 anos. Como vários de seus conterrâneos centenários, Gomes tem uma disposição difícil de encontrar em gente com 30, até 40 anos a menos. Acorda perto das 3 da manha. Às 7 horas, já esta na roça. Assim ele ajudou a sustentar cinco filhos, três bisnetos e uma quantidade de netos que o fez perder as contas. Numa manhã de domingo, de sol a pino e sob o calor escaldante do Norte, ele trabalhava na lavoura de guaraná. “Não sinto fraqueza”, diz, instantes antes de colocar nas costas um saco com 30 quilos de guaraná e sair andando a passos largos. “Estou sempre forte.”
Maués só ganhou fama de terra da longevidade ha três anos, quando o numero elevado de aposentadorias no município chamou a atenção do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Havia a suspeita de que as pessoas forjavam a idade para receber o beneficio. Por dois anos seguidos, os auditores da Previdência foram até lá investigar. Bateram de casa em casa para visitar os idosos e constataram que todos estavam bem vivos. O episódio atraiu a curiosidade dos pesquisadores de universidades do Amazonas, do Rio Grande do Sul e de León, na Espanha, que estão estudando o caso desde 2008. “Ainda não sabemos as causas, mas os idosos de Maués, além de viver mais, têm menos diabetes, hipertensão, câncer e obesidade”, diz o coordenador da pesquisa, o médico Euler Ribeiro, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade.

Os cientistas não descartam a contribuição preciosa do estilo de vida dos moradores de Maués. Eles não consomem produtos industrializados, ricos em gordura e pobres em nutrientes. Abusam do guaraná, fruto com componentes estimulantes do sistema nervoso central. A alimentação é baseada em hortaliças, legumes e raízes plantadas pelos próprios moradores, para quem também não faltam exercícios físicos. Lavradores em sua maioria, eles vão para a roça, caminham pelas florestas carregando a colheita, sobem e descem morros. Mas, se as hipóteses ambientais ainda são vagas e não comprovadas, o componente genético da longevidade dos habitantes de Maués pode estar perto de ser desvendado. “Os habitantes de lá são frutos de uma mistura de 60% de índios, 20% de europeus e 20% de árabes, judeus e negros”, diz Ribeiro. “São populações ricas em genes associados a Iongevidade.”
Graças a pesquisas como a de Ribeiro, os cientistas estão conseguindo reunir as peças do complexo quebra-cabeça do nosso processo de envelhecimento. Essa área de pesquisa permaneceu dormente até o início da década de 1990, quando a medicina antienvelhecimento ainda era considerada por muitos um assunto para curandeiros. Com a descoberta em 1993 de um gene que aumentaria a duração de vida de um verme, o interesse pelo tema floresceu. Desde então, os cientistas anunciaram a existência de pelo menos uma dúzia de genes da Iongevidade. Era o que se tinha de mais avançado na área, até a semana passada.
Os pesquisadores ainda não tiveram tempo de analisar cuidadosamente cada um dos genes encontrados no novo estudo. A função de alguns é conhecida. Já a associação de outros à longevidade é uma novidade. No geral, eles parecem corroborar as teorias existentes sobre como os genes influenciam nosso envelhecimento. Eles teriam um papel importante nas reações químicas que produzem energia para nosso corpo. Essas transformações geram compostos químicos que vão se acumulando nas células – os radicais livres, que podem se ligar a nosso DNA e causar erros de funcionamento. Nosso organismo conta com genes encarregados de fazer faxinas periódicas no DNA para livrá-lo dos radicais livres. Mas, com o passar do tempo, esses genes deixam de funcionar.

As pessoas com uma das 19 versões da genética premiada teriam variações desses genes mais eficientes na produção de energia. Elas manteriam as células funcionando como se estivessem no modo de economia, gerando menos radicais livres. Os centenários também contariam com genes que promoveriam a faxina no nosso DNA por mais tempo, mantendo seu funcionamento perfeito. “O que faz essas pessoas viver muito mais não é a ausência de genes causadores de doenças”, afirma a pesquisadora italiana Paoia Sebastiani, co-autora do estudo publicado na Science. “As chances de ter genes causadores de doenças e quase a mesma entre os centenários e a população normal. A diferença é que os centenários têm variações de genes que parecem anular a ação dos genes que causam doença.”
A ciência ainda precisa decifrar essa intrincada rede de ação dos genes do envelhecimento para alcançar tratamentos capazes de interferir na duração da vida.
“A pesquisa mostra que há genes demais desempenhando pequenos papeis na longevidade”, afirma o biólogo americano Leonard Guarente, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de Massachusetts, responsável pela descoberta, na década de 1990, de um dos primeiros genes da longevidade.

Os pesquisadores já pensaram ter chegado perto de controlar uma das variáveis genéticas que afetam o envelhecimento. Eles descobriram que uma substancia encontrada nas sementes das uvas, nas cascas de uvas pretas e no vinho tinto, chamada resveratrol, seria capaz de ativar o gene que coloca a célula no modo de economia de energia. A descoberta causou sensação no meio científico. Um grupo de cientistas chegou a fundar em 2004 uma empresa de biotecnologia, a Sirtris, para desenvolver uma droga baseada no resveratrol.
Em 2008, a empresa foi vendida por US$ 720 milhões para 0 gigante farmacêutico GlaxoSmithKline, mas os avanços das pesquisas não seguiram no mesmo ritmo de valorização da empresa. Em janeiro, cientistas de uma farmacêutica concorrente divulgaram não ter conseguido comprovar em um novo estudo em laboratório os efeitos antienvelhecimento do resveratrol. Em maio, a própria Glaxo suspendeu uma de suas pesquisas com a molécula em razão de possíveis efeitos colaterais.

Mas ainda ha esperança de que esse seja o caminho para alcançar um tratamento que retarde os efeitos do envelhecimento. “A tendência mais atual é pesquisar formas de colocar o organismo nesse modo de economia de energia”, afirma Maria Luisa Tagliaro, professora de gerontologia biológica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
A tarefa é complicada. Além de entender como a ação de cada gene reflete nos demais, os pesquisadores também terão de descobrir como fatores ambientais desencadeiam reações em nosso organismo capazes de alterar o funcionamento dos genes. “Poluição, alimentação, estresse influenciam no funcionamento dos genes”, afirma Sang Won Han, professor da Universidade Federal de São Paulo, especialista em terapia genética. Por isso, quem não nasceu com o bilhete premiado precisa dar uma forcinha à própria genética. “Uma dieta saudável, a prática de atividades físicas e o controle do estresse ainda são o verdadeiro elixir da juventude”, diz Ivana, da UFSM.
O paulista José Aparecido Rodrigues Prado, de 94 anos, pode até ter ganhado na loteria genética da longevidade, como a idade avançada permite supor. Mas ele preferiu não pagar para ver. Nunca gostou de beber nem de fumar. Sempre comeu de tudo, mas em quantidades moderadas e com uma preocupação: “Se a comida me fez mal uma vez, nunca mais como”, diz. Com a idade, o zelo com o corpo aumentou. Hoje Prado come pouca carne vermelha, aboliu a margarina, adora frutas e não chega perto de doces e refrigerantes. Todos os dias, com assiduidade religiosa, caminha mais de 2 quilômetros.
Aqueles que não têm a disposição de Prado podem sonhar com o dia em que a ciência chegara a tratamentos que confiram as benesses de uma genética privilegiada. Bem antes desse dia, e provável que os mais ansiosos possam ter uma idéia da sorte que tiraram no bolão genético – pelo ritmo da evolução tecnológica nessa área, não deverá tardar até que laboratórios estejam prontos para oferecer testes acessíveis para rastrear os 19 perfis genéticos associados à longevidade. Mas os próprios pesquisadores avisam: o melhor modo de chegar bem a terceira (ou quarta) idade ainda é, e continuará sendo, cuidar bem da própria saúde. .

Com Daniella Cornachione

Esse post foi publicado em bem estar, Longevidade, nutrição, saúde. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s